Herói pequenino

Story of a boy who agreed to save his brother.
Histoire d'un garçon qui a accepté de sauver son frère.
Storia di un ragazzo che ha accettato di salvare suo fratello.
Historia de un chico que aceptó salvar su hermano.

As paredes alvas do consultório da unidade de saúde, imprimiam mais silêncio ao ambiente. Pausadamente rasgando o silêncio da sala um homem arrastava-se timidamente até junto de mim, de pele tisnada pela dureza do tempo estendeu-me a mão áspera da vida, nesse cumprimento houve permuta de calor, calor humano.
Na outra mão levava uma criança, numa voz firme mas afectuosa incentivou-a às normas cordiais. Timidamente sorriu-me. Os seus olhitos, enormes mostravam sinais evidentes de pasmo misturado com medo, no entanto revelando sempre curiosidade ao que o rodeava. A voz compassada do homem desviou-me a atenção:
-É ele o irmão!...- disse-me ele.

Desviei de novo o olhar para aquela criança, que irrequieto como os ponteiros dos segundos, descobria o espaço do consultório. Ao sentir o meu olhar parou, dirigiu-se e fitou-me por momentos. Pus a mão no seu ombrito, sentindo a fragilidade do seu corpo e por escassos minutos ganhei coragem.
Tinha a árdua tarefa de lhe recolher uma amostra de sangue e antes explicar que era fundamental para o seu irmão que sofria duma rara doença. A única chance de recuperação para ele parecia ser através daquela análise que possibilitaria uma transfusão de sangue ao irmão mais velho.
Em termos médicos, ele, contrariamente ao irmão tinha sobrevivido à mesma doença e parecia ter, então, desenvolvido anticorpos necessários para combatê-la. Expliquei-lhe toda a situação e perguntei, então, se ele aceitava fazer aquela análise para ajudar o respectivo irmão.
Quando acabei, ele encostou-se ao pai, escondendo a cabeça entre o casaco gasto pelo tempo, mas soerguendo o olhar, perguntou:
-Tenho mesmo que tirar sangue?- Rodando o corpito na minha direcção continuou:
-Isso vai doer muito, não vai?! Acho que não quero…- e começou a puxar o braço do pai para sair do consultório.
Baixando-se o homem ficou de cócoras e barrou a passagem ao filho, de olhos firmes um no outro ficaram em silêncio, olhos nos olhos. Num ímpeto abraçaram-se, e ficaram assim eternos segundos:
–Vá lá!... – disse o pai – Sabes que o João precisa que o ajudes…
Duma forma expedita, como é comum às crianças da sua idade, encarando o pai e num desafio a mim, retorquiu:
– Posso pensar um pouco? – e cruzando os braços, continuou – Não olhem para mim, deixem-me pensar!...
Fiquei estupefacto que os seus 5 anitos lhe dessem uma atitude tão serena. O pai afagava-lhe os cabelos e eu vi-o hesitar um pouco mas, depois de uma profundo suspiro disse:
- “Prontos.. Tá bem”, já que é para salvá-lo... Mas não quero é que doa muito!
A meu pedido, deitou-se sobre a marquesa, sem reclamar acomodou-se e esticou prontamente o braço. Heroicamente suportou a picada da agulha enquanto com a outra mão apertava a do pai. Enquanto lhe tirava sangue acercou-se de mim e perguntou numa voz ciciada mas clara:
- Eu vou começar a morrer logo, logo?!... ou só no fim de me tirarem o sangue todo?....
Numa atitude incontrolável cerei os maxilares para conter o marejar dos olhos, impedindo o aparecimento de lágrimas. Aquela criança por ser tão pequeno e novo, tinha interpretado mal as minhas palavras pois, ele pensou que teria que dar todo o seu sangue  para salvar o irmão, mas mesmo assim e depois de pensar aceitou correr esse risco, um pequeno herói, mas tão grande no sentir quanto na coragem.
Num mundo onde as crianças cada vez mais têm tudo por vezes falta-lhes a coragem, e algumas tão limitadas ao muito que se lhe depara acabam por não viver a vida impregnadas de tecnologias e coisas mas desprovidas de essências e afectos.

Pensem nisso

5 comentários:

cathoune disse...

très jolie histoire et véridique...
Quel courage finalement ce petit homme...
Comme quoi - il y a toujours à espérer...
le petit de l'homme n'est pas mauvais au fond...

Les gens sont souvent indifférents,ne pensent qu'à eux, personnels, égocentriques, mais devant de grandes causes ou les grandes souffrances, ils savent se donner la main... Et il existe heureusement de grands élans de solidarité... bISOUS cathy

academico disse...

Que historia mais bonita... o rapazinho a decidir "morrer" pelo seu irmão... e com só 5 anos...

marcia disse...

Linda e comovente...
bju querido!
Marcia

Priscilla Simões Müller disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ábia Costa disse...

Maravilhoso texto,bem escrito e envolvente. Parabéns

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