A Perda de uma amiga

We enforce our rules to our laws, our interests, not only to protect ourselves, but to feel superior.
Nous appliquons nos règles, nos lois, nos intérêts, non seulement pour nous protéger, mais pour nous faire sentir supérieures.
Aplicar nuestras normas de nuestras leyes, nuestros intereses, no sólo para protegernos a nosotros mismos, sino para sentirse superior.
Si fa rispettare le nostre regole per le nostre leggi, i nostri interessi, non solo per proteggere noi stessi, ma per noi sentirsi superiore.
Aproveitando estes dias de feriado para fazer a minha higienização mental, fui estes 4 dias aqui bem perto à cidade da luz ver uma exposição duma diva do cinema francês: Brigitte Bardot; BB mais conhecida. É sempre reconfortante passar uns dias na cidade luz em particular ver uma das princesas do cinema francês, mas hoje é também um dia de memória porque faz anos que perdi uma grande amiga conforme ilustro no texto que na altura fiz em sua homonagem:


Havia alegria no seu olhar, de olhos ternos todos os dias me recebia. A minha presença era-lhe grata, insistia numa carícia oferecendo a sua cabeça no contacto com a minha mão. Numa postura calma mas atrevida brincava em redor, corria para que a visse, mostrava-se para que a sentisse. Atenta ao que a rodeava parava por momentos a olhar, a ouvir a cheirar o mundo. Toda ela era alegria, uma alegria singela, pura e simplesmente era vida, mesmo quando triste com a ausência dos que faziam parte do seu mundo. Não conhecia barreiras, não conhecia normas, nem tão pouco sabia quão atrozes eram os seres humanos. O importante para ela: era viver, ser fiel e amiga com os que a rodeavam. Nada sabia de leis, de técnica, de ciência mas sabia muito, mas mesmo muito de amizade. Sabia ouvir, sabia perdoar e aceitava erros dos que a amavam, aceitava ausências. Calma e serena estava sempre disponível. Seria digna se fosse humana: teria carácter. Era apenas uma cadela, com o nome de princesa chamava-se: Sissi, mas mais do que isso era uma companheira, e irreverentemente amiga. Seu pêlo castanho brilhante, de sua raça perdigueira, era uma amostra bela do seu interior magnânime. Adorava tal qual criança, brincar e explorar o mundo que a rodeava, porque acreditava nele.
Um dia, aventurou-se e na sua inquietude juvenil provou o veneno que alguém deliberadamente deixou para proteger a sua propriedade. Alguém, que pensa estar no topo da pirâmide da Vida, alguém que pensa ser superior. Pagou com a vida essa lição. A lição que o ser humano não é o topo da pirâmide da Vida, mas o destabilizador das suas bases. Talvez, na hora da agonia do desfalecer compreendeu que os mesmos que invocam inteligência não são mais que uns irresponsáveis cobardes descercados. Talvez, a sua compreensão canina, não lhe tenha permitido tanto e perdoou, regressando a casa ao seu ninho, arrastando dentro de si o elixir da morte, mas concertara perdoou, calmamente, em desespero morreu, numa contractura generalizada, pensando que a sua vida não era digna de humanos. Provavelmente nesses momentos de desespero, compreendeu que era melhor ser cadela, inteligente sim mas não criativamente. Teve o cuidado de morrer para que os seus a vissem, com um olhar meigo imposto, para que percebessem até os mais atrozes que afinal, ela era um animal irracional e, também tinha direito a viver, e fê-lo com dignidade. Quem a matou, impunemente irá continuá-lo a fazer e não serão palavras como estas que o irão demover, convencer ou simplesmente perder tempo a lê-las, porque provavelmente na sua ignorância nunca compreenderá o que ela compreendeu, e me fez entender: que nós humanos convictos da nossa hipocrisia, continuamos a querer dominar o mundo que não pertence só a nós. Impomos as nossas regras as nossas leis, os nossos interesses, não só para nos protegermos, mas para nos sentirmos superiores. As nossas fraquezas são evidentes: envenenam-se e matam-se animais não pela necessidade de sobreviver mas pela malvadez de existir. Não admira, que se façam as maiores atrocidades para afirmar os interesses. Tudo pode valer em prol de uma existência decadente. Acredita-se, adora-se e/ou contesta-se um Deus por conveniência, mata-se por interesse, expomo-nos ridiculamente por um momento de glória, elabora-se produtos mortíferos (droga, venenos), investiga-se e disseca-se o saber e o meio, simplesmente para nada, pois são esses os primeiros a partir para esses devaneios da loucura de existir. Poucos, mas muito poucos terão a dignidade daquela cachorra que nada percebia de nós humanos. O importante para ela era viver, simplesmente viver em harmonia com os que a rodeavam, dar-lhes amizade, alegria era a sua máxima do dia a dia. Realmente, não compreendia grandes filosofias, grandes ideologias, não via futebol com o interesse canino e doentio de muitos humanos, nada sabia de Teologia, de Política, de Ciência, Robótica ou Cibernética, mas sabia muito de Sentir, sabia muito de Vida, e acima de tudo acreditava que depois de cada dia viria outro… se a deixassem.
Sinto a sua falta, não como artigo de luxo, ou decorativo, como muitos insistem em tratá-los, confinando-lhe um pequeno espaço que é o sobejo do seu, e que quando, por motivos não compreensíveis à razão de quem sente, são votados ao abandono… simplesmente porque começam a estar a mais, esquecendo a sua capacidade de amar.
MORREU, sem epitáfio, sem celebrações, apenas a acompanharam, o suor de quem contrariamente fazia um buraco no chão, não pela dureza do trabalho mas pela dureza da despedida, cobriu-a a camada de terra, que a tapou ao mundo. Soturnamente, fico mais só, mais vazio. Porém, deixou-me a certeza de que é preciso fazer das nossas regras, regras abrangentes, mais existenciais e menos “humanas”. Vive-se com a certeza de que vida tem um fim, mas é preciso dignificá-lo porque prolongar a existência de nós mesmos a todo preço poderá implicar a promoção da nossa decadência. Urge, repensarmos que não somos únicos, independentemente dos nossos credos religiosos ou filosóficos. Era apenas uma cadela, pensaram muitos, mas enganam-se, porque era apenas um SER e acima de tudo uma AMIGA incondicional, tanto quanto o seu espírito canino lhe permitia, não precisava de promessas, presentes, para continuar a sê-lo, bastava a nossa presença, a nossa voz, uma carícia, o nosso afecto.
Fica-me a obrigação de preservar a sua memória, recordando aos da minha espécie a dignidade desse sentido. De fazer acreditar aos que educo que a Vida não se limita ao nosso universo introspectivo, mas à capacidade que temos em respeitar e aceitar diferenças. Talvez assim, consigamos tornar mais digno o Mundo, que apelamos ser nosso. Sem armas, sem guerras, sem ódios, sem drogas, sem VENENOS, sem vaidades sem momentos cadentes de glória, sem heroísmos, ou fanatismos. Apenas e só, co-habitarmos com a nossa dignidade da inteligência, que portamos e nos auto denominamos. Pouco importa viver se a Vida não for vivida em conjunto, e para isso é preciso não destruir. A fugaz passagem de uma cadela por este mundo deixa uma lição para os que querem pensar que valeu a pena viver quando se acredita que na vida há sentido, quando pudermos acreditar nos que dizem estar acima.
Obrigado SISSI, pela amizade, pela dedicação e pela LIÇÃO. Com o teu espírito irreverente de animal tornaste-me mais HUMANO. Lembrar-me-ei de ti e das tuas tropelias para cativares a minha amizade e destroçares a minha seriedade, a seriedade de quem pensa, mas também sente. Procurarei fazê-lo a partir de hoje de uma forma mais digna, tendo como exemplo o teu desinteresse pelas coisas, e mais interesse pelo sentir.


Pensem nisso


António Veiga

3 comentários:

marcia disse...

QUERIDO AMIGO,
A POSTAGEM COM IMAGEM DA CADELINHA É DE CORTAR O CORAÇÃO! NÃO SEI DESCREVER O QUE SENTIR. ACREDITO QUE UMA MISTURA DE TODOS OS SENTIMENTOS QUE POSSAM REFLETIR A DECEPÇÃO DIANTE DA MALDADE DO SER HUMANO.
UM GRANDE E FORTE ABRAÇO
MARCIA

Drica disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Drica disse...

Tenho lágrimas nos olhos...
Lágrimas pelas morte de sua amiga, mas também por conhecer a maldade humana. Muitas emoções se misturam nesse momento mas creio que o que fica é saber que Sissi, por ser tão especial teve o privilégio de ter por amigo um homem tão sensível, preocupado com o mundo e com quem nele habita, preocupado com o respeito e com a nobreza dos sentimentos, preocupado com o ser e fazer feliz.
Sissi se foi, e sei que não era apenas uma cadela, era SUA Sissi, sua amiga.

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